Momentos perfeitos não se planeiam: acontecem. E a harmonia surge do nada, quando menos se espera, quando não há expectativas maiores do que a probabilidade de algo acontecer.
Em tempos ela fez planos; programou muita coisa com uma antecedência absurda, sonhou demasiado longe da realidade e ansiou que algo acontecesse só porque assim desejava. Aperceber-se da distância a que estava dos seus devaneios foi mais doloroso que qualquer queda, foi mais bruto que qualquer grito, mas um dia aconteceu. Não pode evitar nada; fugiu tudo do seu controlo, correu tudo ao contrário do imaginado e sobrou só ela: sem mais planos e sem vontade de sonhar o que quer que fosse.
Só ela, sem bagagem, seguiu em frente: dia após dia. Esperou pouco, sonhou pouco e sentiu muito menos. Sentiu-se cada vez mais cheia de si e tão vazia de tudo o resto… À distância de algum tempo ficaram no chão os pedaços de todos os planos que outrora fizera; não quis lembrar-se deles, quis só ter novos motivos para acreditar; quis acreditar em qualquer coisa.
Coração ao alto, emoções no mínimo, deixou-se levar pelo resto do tempo: sem pensar. Não esperava nada, simplesmente vivia e, sem dar nada em troca, não se importou de nada receber. Mas nem tudo segue um plano e, fora de qualquer projecto arquitectado sobre infindáveis sonhos, surgiu quem a fizesse voltar a sentir… Porque a perfeição não se planeia: vive-se. Sente-se.